Prosumidores - O papel activo dos consumidores do século XXI

Prosumidores - O papel activo dos consumidores do século XXI

Prosumidor é um termo que resulta da junção das palavras, produtor e consumidor, que salienta o crescente papel dos consumidores no processo produtivo daquilo que consomem. Basta pensar, por exemplo, no multibanco, onde o cliente do banco acaba por fazer o trabalho que antes caberia a um caixa. Existe porém, uma outra visão do termo, que substitui o vocábulo produtor por profissional, e que designa o segmento de mercado intermédio entre o profissional e o mainstream. Este segmento nasce com a crescente exigência por parte de alguns entusiastas, que detém um domínio de certos produtos (Computadores, Máquinas de filmar etc.) equiparável ao de um profissional, embora não estejam normalmente dispostos a pagar tanto pelos mesmos. No entanto, era sobre o primeiro conceito que gostaria de falar, porque na minha opinião, designa uma tendência muito mais significativa pelo seu impacto socioeconómico.

Esta noção foi apresentada pela primeira vez pelos futurologistas, Alvin Toffler e sua esposa, Heidi Toffler, em 1980, no seu livro “A Terceira Vaga”. Segundo os Toffler, o modelo de produção em massa iria atingir um ponto de saturação, que levaria a indústria a procurar níveis cada vez maiores de personalização dos produtos. Na sua visão, a economia tenderia para um modelo onde cada produto seria feito à medida de cada consumidor, segundo as suas preferências, gostos etc. A isto chamar-se-ia Customização em massa. Para o conseguir seria necessário preencher duas premissas. A primeira seria a transformação dos processos produtivos para permitir uma maior flexibilidade da produção em massa, possibilitando que os outputs fossem verdadeiramente personalizáveis. A segunda, seria a existência de canais de informação que colocassem os consumidores à distância imediata, necessária para que pudessem efectuar as especificações desejadas. É fundamentalmente este último conceito, que transforma o consumidor em prossumidor, por exigir deste, um grau de envolvimento no processo produtivo, quanto mais não seja, ao fazer as suas escolhas e, efectivamente desenhar o produto.

A sensibilidade geral é de que Toffler terá previsto uma tendência marginal que pouco se faz sentir. De facto, são poucos, aqueles que admitem que, talvez a ideia de prosumidor ainda se esteja a introduzir na sociedade. Por outro lado, é difícil ignorar que o papel do consumidor na cadeia produtiva é cada vez maior, e em grande parte graças à Web. Se quisermos comprar um automóvel, podemos aceder aos sites das marcas onde nos disponibilizam configuradores que nos permitem alterar os modelos dos carros até ao mais ínfimo pormenor. Se precisarmos de um PC novo, os sites das lojas de informática permitem escolhê-lo peça a peça, desde a caixa, até à marca das memórias RAM. Quem já leu os meus artigos sobre Millenials deve já fazer uma ideia do ponto onde quero chegar. É que são precisamente estes, toda a nova geração de consumidores, que adoram estas coisas. Na minha opinião, o que Toffler e a sua esposa previram, foram eles, os Millenials…

A Web 2.0, a Web do Youtube, Google, Facebook, Wikipedia etc. É provavelmente a mais grandiosa obra dos prosumidores. Levado ao extremo, o conceito de consumidor produtor, implica que todo o processo de produção está na mão do consumidor. Talvez esta ideia seja um pouco excessiva, mas é inegável que existem exemplos deste fenómeno. A Wikipedia, por exemplo, é uma enciclopédia de utilização gratuita, constituída exclusivamente pelas contribuições dos seus utilizadores. O Linux é um sistema operativo gratuito, do qual existem dezenas de versões diferentes, desenvolvido por milhares de programadores anónimos (Talvez uns sejam mais anónimos do que outros…). A Isto chamou-se, colaboração em massa, e dá-nos uma ideia de que os prosumidores estão interessados em duas coisas, produtos feitos à medida e envolvimento na produção e desenvolvimento.

Uma área que tem visto uma significativa influencia dos prosumidores potenciada pelas ferramentas online, é a das notícias. Hoje em dia, qualquer pessoa pode ser um repórter fotográfico, um colunista ou até um crítico de arte. Quando o avião da U.S. Airways aterrou no rio Hudson, a primeira “reportagem” foi feita por uma Nova Iorquina que se encontrava num ferry e, assistiu a tudo in loco. Depressa fotografou o acontecimento, tendo-o propagado através da sua conta no Twitter. O mesmo se passou com os atentados de Bombaim. Em ambos os casos, os utilizadores do Twitter, souberam e viram o que se passava, muito antes de qualquer redacção jornalística, ter sequer sabido do que estava a acontecer. Claro que a indústria se tenta defender… Dizem “Como se atrevem essas pessoas a considerarem-se Jornalistas?”. De facto, não o são. Pelo menos não de formação e, na verdade, nem sequer estão a tentar sê-lo, estão apenas a ser elas próprias. Mas a verdade nua e crua, é que quem quiser saber as noticias hoje em dia, tem à sua disposição material gratuito na internet em quantidades avassaladoras, e as actualizações são ao minuto (mesmo ao minuto!). A Web até disponibiliza serviços de edição personalizáveis, como o Meehive.com ou então tira partido de sistemas de recomendação, partilha e social networking para providenciar as notícias, como é o caso do newsvine.com.

Então como podem as empresas defender-se deste tipo de concorrência?

Não podem. Nem devem. O simples facto de pensarem nisso, revela uma estupidez de proporções inomináveis… Como já disse atrás, as noções de prosumidor e millenial, misturam-se. Defender-se deles é o mesmo que se defender dos seus próprios consumidores. Consegue imaginar um negócio que, em vez de se preocupar em vender ao seu público-alvo, tenta impedi-lo de fazer aquilo que quer e gosta? Absurdo não é?

Mas então o que fazer? Como vender um produto a um público que o produz gratuitamente? Se a população em geral, tira partido de efeitos de rede, para criar produtos e depois os distribui gratuitamente, como pode uma empresa ser competitiva e ainda cobrar pelos seus produtos ou serviços?

Em primeiro lugar, os efeitos de rede criados pela Web estão lá para serem aproveitados por todos. Não são um exclusivo dos consumidores e as empresas devem aprender a tirar partido deles, colocando à disposição dos seus consumidores plataformas de interacção. Há um potencial de comunicação, entre as empresas e os consumidores, na Web, que se encontra vastamente inexplorado. A maioria dos Marketers reconhece que a internet trás um conjunto de novos meios de publicidade muito atractivos, como o Search Marketing. Mas há muito mais na rede do que adwords… Através do seus websites as empresas podem fomentar os seus consumidores a enviar feedback acerca dos produtos que adquiriram, incentivar através de promoções ou descontos que os seus consumidores se transformem em Evangelistas da marca etc.

Uma estratégia relativamente popular consiste em oferecer um determinado serviço ou produto gratuitamente, para depois vender um outro serviço ou produto em que a marca é reconhecidamente especialista ou até exclusiva. Mas existem outras formas de contornar o problema.

É inegável que aquelas que eram empresas altamente bem sucedidas nas décadas de 70, 80 e 90, hoje em dia enfrentam problemas sérios. As suas fragilidades são evidentes e muitas não sobreviverão aos anos 2000. As que triunfarem serão aquelas que se souberem adaptar aos novos paradigmas, e isso implica uma mudança radical de pensamento. Um bom primeiro passo, seria sem dúvida, um investimento claro na interacção via Web. Os prosumidores, e em particular os millenials, gostam de atenção e de produtos à sua medida, e se puderem ser eles a desenhá-los, tanto melhor… Afinal de contas, nem tudo pode ser conseguido exclusivamente através de fenómenos de contribuição em massa. 

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