No meu último artigo debrucei-me sobre os Millenials, as suas principais características enquanto consumidores e, o que as empresas devem fazer para se adaptarem às suas exigências. Porém, não pude evitar ficar com a sensação de que o artigo estava algo incompleto. É óbvio que o tema é suficientemente vasto para um livro inteiro, senão mesmo vários, e não é minha intenção escrever aqui uma tese sobre a Geração Y (o nome mais formal e cientifico da geração dos Millenials). No entanto, há um outro ângulo, para explorar este assunto, muito importante para as empresas.
Os Millenials já não se fazem, pois esta geração termina naqueles que nasceram em 2000, os que nasceram entretanto são agora chamados de Geração Z (de notar que a geração que precede os Millenials, e é precedida pelos Baby-Boomers, é a Geração X (Os Boomers foram os hippies, os X’ers eram as crianças do tempo do Woodstock e os que andaram a dançar disco sound e outras foleirices dos anos 80)). Isso significa, fundamentalmente, que os Millenials estão a invadir o mercado de trabalho. O que levanta a questão: Se a classe que ocupa a vasta maioria dos lugares de liderança, não está preparada para vender os seus produtos aos Millenials, estará preparada para os chefiar e gerir?
Bom, a resposta é, muito concisamente: Não!
A grande maioria das empresas são, actualmente, lugares altamente formais onde as pessoas são forçadas a vestir fato e gravata, chegar e sair a horas fixas e predeterminadas e, onde existem todo um sem número de outras regras rígidas de conduta. O que está muito bem, tanto para Boomers como para X’ers, o que é o mesmo que dizer, para todos os maiores de 30. Mas o que pensam os Millenials de tudo isto?
Tenho a certeza que sabe a resposta a esta pergunta…
Eles pensam que isto é tudo uma grande idiotice, para a qual não existe qualquer explicação racional e da qual não advém nenhum beneficio prático. À partida, este raciocínio não é de todo descabido, mas o que motiva esta forma de pensar é, na verdade, o que de pior tem esta geração. Os Millenials foram habituados a ter tudo. A serem recompensados apenas por existirem ou aparecerem. Os Boomers carinhosos e dedicados, que os educaram, estragaram-nos com mimos e, raramente lhes exigiram resultados. Ou seja, aquilo que os torna tão optimistas e exigentes, tem o efeito adverso, de os tornar igualmente egoístas e, em alguns casos, até mesmo narcisistas. Ou seja, os Millenials até têm alguma razão quanto à excessiva rigidez dos processos formais, burocráticos e de conduta das empresas (Pelo menos na opinião deste Millenial
) Mas também é verdade que não dispõem da ética laboral das gerações anteriores.
Para eles, o mais importante para a empresa deve ser… Eles mesmos. E por isso, as condições de trabalho devem ser como eles querem, ponto final. As empresas devem apaparicá-los, oferecer-lhes verdadeiros mimos. Deve haver refrigerantes, gelados e chocolates, e a cantina deve servir comida no mínimo tão boa como a dos grandes restaurantes (tudo isto deve ser à borla, isso nem se discute). O ambiente no escritório deve ser informal e descontraído, e os colegas de trabalho devem ser capazes de os fazer rir. Deve haver uma zona de recreação onde existam coisas como sofás para descansar, consolas de videojogos e mesas de ping-pong para se divertirem. As suas opiniões e ideias devem ser levadas em conta, e os executivos de topo tão acessíveis como qualquer outro membro da empresa. O trabalho que executam, ou pelo menos a missão da empresa, deve ser significativo e ter um impacto no mundo. A empresa deve dar grande importância à inovação e o trabalho deve ser desafiante, nunca aborrecido ou monótono. Devem existir iniciativas desportivas regulares, como jogos de futebol ou basket, e até sessões de massagens e yoga, e já agora uma pista à volta da empresa para a malta fazer um jogging. E acima de tudo, as chefias nunca se devem cansar de os elogiar e enaltecer.
Os executivos de grandes empresas multinacionais que se deram ao trabalho de tentar perceber esta nova vaga de trabalhadores, como a Merryl Lynch, Ernst&Young, etc. começam agora a compreender que, com eles, é necessário outro tipo de tratamento. Os Millenials são incapazes de receber ordens e não nutrem grande lealdade pelas empresas onde trabalham (a não ser que estas sejam exactamente como eles gostam, nesse caso os Millenials apaixonam-se). Eles são a sua primeira prioridade, e as necessidades do trabalho e da empresa devem adaptar-se ao seu estilo de vida e não o contrário. Com eles é necessário pedir e até mesmo ser atencioso. E escusa de ficar admirado, porque eles apenas esperam de si aquilo que sempre receberam dos seus pais. E o pior para os Gestores, é que para os Millenials, trabalhar na sua empresa ou noutra qualquer, é absolutamente indiferente e, devido à diminuição das taxas de natalidade, existem hoje em dia, muito mais trabalhos do que trabalhadores, por isso, ele pode sempre mudar para uma empresa que o trate como ele merece. (de notar que este artigo se debruça sobre Millenials com formação Superior. É também necessário ressalvar que, com o actual estado de crise, este excesso de oferta de emprego está a sofrer uma desaceleração)
É também verdade que Portugal é uma excepção a esta última questão e que, o desemprego ainda é elevado entre os Licenciados. Mas esta situação está a mudar, à medida que a nossa
economia se moderniza. Além disto, os Millenials sabem ir à net colocar os seus currículos em sites de recrutamento, depois abrir o site de uma low-cost para comprar um bilhete de avião para Londres e está o problema resolvido. Já todos ouvimos falar da fuga de cérebros do país, e é disto mesmo que se trata.
Mas afinal não é tudo isto muito contraditório? Uma massa de mão-de-obra como esta é demasiado insuportável… Para que precisa uma empresa de indivíduos como estes?
Bom, é verdade que esta análise pode ser um pouco injusta. Mas mesmo que não fosse, que poderiam as empresas fazer? Esperar vinte anos pela próxima geração, e só então começar a contratar novos funcionários? Claro que não.
Além disso, nem tudo nos Millenials é mau. Bem pelo contrário. Alguns argumentarão que o mercado de trabalho é que está mal e que, dado o ambiente empresarial adequado, os Millenials revelar-se-iam trabalhadores excepcionais. O que não está longe de ser verdade.
Os Millenials gostam de executar processos em paralelo, são multitaskers, tal e qual os processadores dos seus PC’s e telemóveis. E como são altamente Tech Savy, possuem recursos e ferramentas avançadas que os tornam muitíssimo produtivos. Dir-se-ia que a sua necessidade de possuir uma vida social activa, e acima de tudo, de não quererem sofrer o mesmo estilo de vida implacável dos seus pais, que pouco mais fazem do que trabalhar, os obriga a inventar formas de fazer tudo mais depressa. Um Millenial não quer perder uma tarde a marcar reuniões com as pessoas com quem precisa de falar, para só depois fazer aquilo de que necessita. Ele pode falar com eles via Skype, ao mesmo tempo que pesquisa na net o software (que a empresa não possui), e nem sequer fica à espera que esta decida comprá-lo, encontra uma versão em open-source, e aprende a utilizá-lo. Quando começar a realizar a sua tarefa, já tem todo o feedback de que necessita e a ferramenta para o fazer mais depressa, e em vez de uma tarde, só perdeu uma hora. Por isso, qualquer empresa onde trabalhem, que não lhes permita este tipo de pro-actividade, deixa-os frustrados e furiosos.
E é por isso que um Millenial não entende que o proíbam de ter o seu MSN ligado. É claro que dificilmente o utilizara apenas para trabalhar, é óbvio que ele irá perder alguns minutos por cada hora de trabalho a trocar mensagens com amigos. Mas e depois? Quanto tempo poupou ele com os seus recursos tecnológicos? (além disso, um Millenial ligeiramente mais competente do que a média, arranjara sempre uma forma de contornar o problema, e depois coloca essa solução num blog qualquer, acessível para quem quer que tenha acesso à internet).
De facto, os Millenials são muito exigentes. Querem um ambiente de trabalho que se assemelhe a um ambiente de convívio social, descontraído, divertido, relaxado etc. E isto é, para muitos, completamente impraticável e inaceitável.
Mas, e se lhe disser que existem cada vez mais empresas que empregam estas praticas com
resultados excepcionais? Empresas onde os funcionários andam de chinelos, barba por fazer e penteados esquisitos. Empresas onde os trabalhadores se sentam em bolas de pilates, para poderem passar o dia aos pinotes em frente à secretária. Empresas que oferecem regularmente happy-hours num bar, para convívio dos colaboradores. Empresas onde os Team Leaders levam os subordinados para a sala de convívio para jogar ping-pong. Empresas como o Google, o Flikr ou o LinkedIn…
Pode parecer estranho, mas é assim que a maioria das start-ups fundadas por Millenials, gostam de gerir os seus recursos humanos, e ao que parece, a coisa não lhes corre mal.
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